Quando o feedback vira cobrança: o que líderes precisam entender antes de avaliar pessoas
- Bruno Tarsis

- 30 de abr.
- 3 min de leitura

Já perdi as contas de quantas vezes vi profissionais saindo de uma sala de feedback muito piores do que entraram. Em muitas empresas por aí, o que as pessoas chamam de "feedback" não passa de uma lista de falhas entregue com meses de atraso, sem contexto e, o pior de tudo, sem nenhuma responsabilidade por parte de quem lidera.
A verdade é nua e crua: quando a liderança não está presente no dia a dia, não remove as pedras do caminho e ainda adora micro gerenciar, o feedback perde a função de desenvolver. Ele vira só uma cobrança disfarçada.
E cobrar sem ter escutado antes raramente faz alguém evoluir.
Vejo muito líder avaliando o time apenas pela entrega final, ignorando completamente o caos que aconteceu no meio do caminho. São processos confusos, ferramentas que travam, falta de documentação, prioridades que mudam toda semana. Tudo isso drena a performance de qualquer um.
Por isso, antes de sentar de frente para alguém e dizer "você não performou o esperado", a primeira pessoa que o líder deveria questionar é a si mesmo.
Eu sempre tento me perguntar: será que o meu direcionamento deixou alguma dúvida? Essa pessoa teve autonomia de verdade ou eu fiquei segurando as rédeas? A culpa foi dela ou o nosso processo mais atrapalhou do que ajudou?
Tem uma frase clássica do Deming que eu levo como um mantra na gestão: um sistema ruim vai vencer uma pessoa boa todas as vezes. Pessoas talentosas não conseguem sustentar resultados em ambientes quebrados por muito tempo. Se a ferramenta é ruim, se a informação não chega e a cultura pune quem tenta melhorar as coisas, a falha não é do indivíduo. Quando a liderança fecha os olhos para isso, ela comete o pior erro da gestão: transforma sintomas de uma empresa desorganizada em defeitos pessoais do colaborador.
E aqui entra uma contradição enorme. Vejo gestores dizendo que querem times com mais "senso de dono" e autonomia. Mas na prática, não deixam ninguém questionar um fluxo de trabalho ou propor uma mudança. Como você vai cobrar maturidade de alguém se você não dá espaço para essa pessoa agir como adulta?
Não me entenda mal, não estou dizendo para evitar conversas difíceis. A Kim Scott fala muito bem sobre isso com o conceito da Empatia Assertiva: você precisa se importar pessoalmente com quem trabalha com você, mas precisa ter a coragem de desafiar diretamente. O ponto é que cobrar resultados é só uma parte do trabalho. A outra parte é garantir que a pessoa tem as ferramentas, o treinamento e o ambiente mínimo para aprender e executar.
Se um líder quer que o time melhore tecnicamente ou tenha mais postura executiva, ele precisa fazer a lição de casa. Isso significa dar direcionamento claro, parar de mudar de ideia toda hora e estar junto antes do problema virar um incêndio.
Quando o gestor usa o momento do feedback só para proteger a própria imagem e jogar a culpa da desorganização nas costas do time, o engajamento morre ali mesmo. O profissional sai da conversa confuso, na defensiva e sentindo que pagou a conta por algo que ele nem controlava.
Um bom feedback não é sentar na frente do outro para listar defeitos. É sentar do mesmo lado da mesa e olhar para o problema juntos. Exige coragem para falar, mas muito mais coragem para escutar e admitir que, muitas vezes, a performance da sua equipe está esbarrando no teto de um ambiente que você mesmo ajudou a construir.
Liderar não é apontar o dedo para onde o outro errou. É construir o chão para que ele possa acertar.



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